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segunda-feira, 24 de maio de 2021

LABIRINTOS NA MENTE, QUIMERAS NO CORAÇÃO

Há vezes em que a vida nos aprisiona em labirintos que são maiores por dentro do que por fora.

Quem olha do exterior vê apenas uma caixa, uma caixa minúscula, lacrada, insignificante: um ponto desprezível na vastidão de um mundo potencialmente sem fronteiras. Contudo, como a caixa é diminuta, o aprisionado se sufoca nessa clausura, sem enxergar luz nem imaginar que possa existir ar. Ainda assim, como a caixa é muito maior por dentro do que por fora, ele vagueia perdido, sozinho, em um emaranhado de caminhos espinhosos que provavelmente não tem fim: um labirinto que com toda certeza não tem saída, já que nunca teve entrada.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

AQUI É SEMPRE NOITE


Escrevendo já há alguns anos e sendo leitor há tantos mais, desenvolvi a convicção de que, para além de mero entretenimento, livros realmente relevantes são aqueles capazes de exercer uma função como que de um Robin Hood espiritual: para mim, literatura de verdade é aquela que perturba o acomodado e tranquiliza o inquieto. Arte literária pra valer é aquela que tira as pessoas comuns de suas zonas de conforto e leva um pouco de paz para aqueles que, perdidos ou afastados de seus caminhos, sobrevivem em guerra cega contra tudo e contra todos, em especial contra si mesmos.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

O QUE HÁ DENTRO DA CAIXA?


Falar sobre opiniões, ideias, emoções e sentimentos é como falar sobre o conteúdo de uma caixa lacrada, sem frestas nem transparências. Por mais que sejamos eloquentes, nunca podemos ter certeza se o interlocutor está com boa-vontade ou pelo menos disposição suficiente para usar sua imaginação e inteligência para reconstruir mentalmente a imagem que lhe estamos sugerindo.

Dentro da caixa há diamantes ou percevejos?

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

PENSAMENTOS ESTRANHOS E IMPRODUTIVOS


Decidi abrir uma seção nova aqui no blog, uma seção destinada apenas aos leitores mais intensamente curiosos e realmente dispostos a abrir a mente e o espírito para novas experiências existenciais, com todas as delícias e maravilhas que isso pode significar, mas também com todos os custos exigidos e os perigos inerentes. A seção será chamada "pensamentos estranhos e improdutivos", em referência à música do David Lynch. A ideia dos textos dessa seção é registrar aqueles pensamentos instáveis e fugidios que, como ágeis peixes fosforescentes, percorrem o mar insondável e incomensurável da totalidade da nossa mente e cruzam correndo os canais obscuros dos nossos neurônios em raios luzidios que são como o ofuscante brilho de um facada a abrir fendas no espesso véu da poeira e da teia de aranha fossilizada das nossas convicções, dos nossos preconceitos, das nossas crenças, dos nossos pontos de vista e de todos os outros limitadores da Consciência e da Imaginação.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O ÓCIO


Como tudo na vida, o ócio também pode ser benéfico ou maléfico para a nossa existência. A depender da predisposição a partir da qual lidamos com ele, o ócio pode ser um vício ou uma virtude (literalmente, oposição digna de gregos e troianos). Felizmente, no mundo contemporâneo, temos palavras distintas para cada espécie de ócio, e com base nos conceitos e interpretações dessas palavras podemos compreender nossos hábitos com maior clareza, sendo-nos possível realizar auto-avaliações mais sensatas e estruturar melhor nossas rotinas em busca de um equilíbrio ótimo entre produção eficiente e descanso revigorante.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

E SE SÓ PUDÉSSEMOS LER UM ÚNICO LIVRO?


"Se você só pudesse ler um único livro na sua vida inteira, qual livro você escolheria?"

Com frequência, entre leitores habituais, alguém faz essa pergunta como que num desafio bem-intencionado. Trata-se, é claro, de uma simples brincadeira sadia (e que eu adoro sempre, já que cada vez escolho um livro diferente). Mas o que eu responderia se, mais do que uma condição hipotética para conhecermos as preferências literárias dos nossos amigos e as nossas próprias preferências, a pergunta fosse mesmo pra valer?

terça-feira, 14 de agosto de 2018

CRIE! – Um apelo à sadia loucura que existe no interior de cada um de nós


“Viver é como andar de bicicleta: para ter equilíbrio você precisa se manter em movimento” – Albert Einstein.
O tempo, fatalmente, envelhece e mata. Não apenas as pessoas e as coisas, mas também cada partícula daquilo que existe dentro das pessoas e das coisas. Até mesmo ocorrências imateriais envelhecem: pense, por exemplo, na rotina perdendo seu sentido, nos hábitos familiares se tornando monótonos, nos costumes deixando de ter significado, naquela piada que já foi contada um milhão de vezes e em tudo o mais que se prolonga por muito tempo sem se reinventar.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

SOBRE A LIBERDADE E A FICÇÃO DE TERROR


Tomar a ficção como uma forma de representar a realidade, dela destacando as cores e contornos que mais interessam ao ficcionista, é uma interpretação válida e sensata. Outro ponto de vista relevante – dentre todos os inúmeros possíveis – é aquele que nos faz enxergar a ficção como uma fuga voluntária da realidade (a “suspensão da descrença”, na feliz definição de Coleridge). Por uma perspectiva ou pela outra, ou mesmo nas misturas que podem existir entre elas, a concepção de que filmes, livros e jogos de terror fazem mal às pessoas (em especial às crianças) é um equívoco que até hoje trouxe mais prejuízos do que benefícios àqueles que, ainda que com boa intenção, tentaram censurar obras violentas e perturbadoras.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

VERDADE, LOUCURA, IMAGINAÇÃO E CUBOS MÁGICOS


“Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham apenas à noite” – Edgar Allan Poe.
“A ficção é a verdade dentro da mentira” – Stephen King.
“A imaginação é mais importante do que o conhecimento” – Albert Einstein.
“Ser normal é a meta dos fracassados” – Carl Gustav Jung.

Ninguém consegue conhecer algo a fundo sem um pouco de loucura. É impossível entrar em contato com a essência de uma verdade sem um toque de imaginação e ousadia. Sempre é necessário desmontar a realidade e dela escapar para que se possa compreendê-la.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

FLORES E CADÁVERES


Recentemente eu escrevi que "para mostrar uma flor, o artista deve ter uma floresta inteira cultivada dentro de si". Um amigo me disse que adorou a frase, mas estranhou ela ter vindo de um escritor de terror.

Pensei a respeito.

Eu poderia ter dito que "para mostrar uma ocultação de cadáver, o artista deve ter alguns corpos enterrados no quintal", mas, além de a nova metáfora fazer perder algumas nuances de significados da original, eu não sou nada bobo de ficar revelando meus segredos por aí...

sábado, 26 de agosto de 2017

Uma questão sobre pesadelos


Esta noite, enquanto eu dormia, sonhava com duas pessoas conversando tranquilamente. O conteúdo da conversa ou quem eram os interlocutores já me escapou da memória, mas sei que eles dialogavam sobre algo de pouca importância. Do que me lembro bem, porém, é que, num décimo de segundo, num súbito 100% inesperado de puro susto físico instintivo, um terceiro rosto, gritando com voz alta e áspera, pulou de dentro do rosto de um dos homens que conversavam em direção ao meu campo de visão, cobrindo-o por completo durante alguns instantes (algo similar ao que acontece quando, num susto barato de um filme de terror, um mostro aparece do nada e preenche toda a tela com uma asquerosidade arrepiante para a qual ainda não estávamos preparados).

sábado, 8 de julho de 2017

POR QUE SONHAR? POR QUE A ARTE?


“Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio-pau a bandeira da imaginação” – André Breton, em “O Manifesto do Surrealismo” (1924).

Todo indivíduo humano, necessariamente, sonha. Mesmo o mais frio e objetivo dos homens, em algum ponto de seu dia, sem a sua permissão, terá sua mente invadida por fluxos estranhos de imagens aleatórias, frequentemente bizarras, quase sempre sem explicação ou sequer lastro na realidade.

sábado, 29 de abril de 2017

REALIDADE E IMAGINAÇÃO

"Os problemas do mundo possivelmente não podem ser resolvidos por céticos ou cínicos, cujos horizontes se cingem às realidades óbvias. Precisamos de homens capazes de sonhar com coisas que nunca existiram" – John F. Kennedy.

Uma das muitas funções do escritor sério – e que talvez sintetize todas as demais – é realçar para o leitor algum aspecto da existência, ampliando-lhe a percepção da realidade.

Para um escritor, a imaginação funciona como um sexto sentido para explorar as possibilidades da existência: um sentido extra que vê o que os olhos não veem, que escuta o que os ouvidos não captam, que fareja o que escapa às narinas, que saboreia o que é inacessível à língua e que experimenta aquilo que a pele nunca sentiu. Essa é a essência do ofício literário, de modo que, para se manter vinculado à realidade, um escritor precisa cultivar assiduamente a imaginação – e, se quiser escrever boa ficção, deve ter, ou ao menos estar buscando, profunda compreensão acerca do mundo real.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

EM DEFESA DOS ESQUECIDOS


"Na França eu sou considerado um artista; na Alemanha, um cineasta; na Inglaterra, um autor de filmes de gênero; nos Estados Unidos, um vagabundo" – John Carpenter.

Uma parte significativa das mais altas conquistas da sétima arte proveio dos filmes de terror, em especial no que diz respeito a fotografia, efeitos sonoros, iluminação, movimentação de câmera e montagem. Uma quantidade gigantesca dos mais inventivos prodígios registrados em imagem e som para fins de pura diversão (o que talvez seja a mais autêntica forma de arte) está em filmes trash, de kunf fu, em faroestes e comédias nonsense. Contudo, muitas dessas obras que representam o ápice da imaginação humana, transbordantes de paixão e explosivas em criatividade, nunca ganham prêmios importantes e raramente constam em mais do que breves notas nos livros de História do Cinema.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Ficção?


Seria a ficção um relatório cifrado, talvez até de modo inconsciente, da relação entre o autor e o mundo pelo qual ele caminha?

sábado, 21 de janeiro de 2017

COMO ESCREVER? (OU: POR QUE ESCREVER?)


COMO ESCREVER? (OU: POR QUE ESCREVER?)
“Não há nada pior do que dar longas pernas para pequenas ideias” – Machado de Assis
Toda experiência, por menor que seja, traz consigo algum tipo de aprendizagem que reflete, em certo grau, uma sabedoria muito maior do que a própria experiência que lhe deu causa: uma sabedoria infinita que nos transcende e da qual só temos acesso parcial por meio de associações, representações, inferências e metáforas. Essa aprendizagem, contudo, filtrada e destilada não só pela razão, mas, principalmente, pelas nossas vivências, pelo nosso temperamento e por tudo aquilo que nos faz seres animados e conscientizáveis, precisa de estímulo para se desenvolver e tempo para se consolidar, funcionando da mesma maneira que uma semente plantada no solo invisível que é o nosso espírito. Assim, não seria exagero manter a analogia afirmando que esse estímulo e esse tempo são, respectivamente, os nutrientes e a irrigação que condicionam o crescimento da semente: são os fatores imprescindíveis para a maturação da aprendizagem, mas que, por comodismo, desatenção ou simples desinteresse, nem sempre permitimos que existam, deixando de estimular o estímulo ou de dar tempo ao tempo, como sugere a sabedoria popular.

Outros motivos


Certa vez, neste link, eu disse que "escrevo por três motivos fundamentais: o primeiro é brincar com o estilo. O segundo é vasculhar estados de consciência. O terceiro eu não sei qual é".

Meu amigo Luciano Otaciano comentou que, para ele, escrever proporciona uma sensação indescritível de liberdade, "igual a um acorrentado que se livra das malditas correntes".

De minha parte, acho belíssimo o ideal de buscar a liberdade plena por meio da literatura, e admiro quem o faz, pois esse é um caminho esplêndido. Confesso, entretanto, – e confesso não sem o receio daquele que caminha por perigoso terreno desconhecido tentando traçar um mapa – que, para mim, a questão assume nuances mais complexas e tormentosas.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Sobre as palavras

Ao escrever, devemos estar cientes de que as palavras sabem mais do que qualquer um de nós. Cada palavra – e, por conseguinte, a própria Língua – possui uma história que é inerente à sua essência: uma história longa, rica, difusa e multifacetada, carregada de significações, símbolos, interpretações e magia. Por isso, como se estivéssemos diante de verdadeiros deuses ancestrais, devemos respeitá-las, dar-lhes valor, estudá-las, tratá-las com a devida reverência.

domingo, 23 de outubro de 2016

MOTIVOS?


Escrevo por três motivos fundamentais. O primeiro é brincar com o estilo. O segundo é vasculhar estados de consciência. O terceiro eu não sei qual é.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

SANGUE

Em se tratando de literatura, não gosto de água com açúcar: quando escrevo, escrevo com meu próprio sangue.