segunda-feira, 6 de março de 2017

Os 18 melhores filmes do mundo – Parte 3


Este blog, mais do que uma simples via de comunicação entre mim e vocês, amigos leitores, é, para este estranho ser que atende pelo nome de Melvin Menoviks, uma espécie de diário virtual em que transcrevo, por meio de palavras, imagens e jogos de linguagem, um pequeno pedaço da minha personalidade.

Esse íntimo compartilhamento de pensamentos, sentimentos, preferências e visões-de-mundo, embora quase sempre se dê em forma de enigma, é invariavelmente sincero e personalíssimo. Por isso, quando faço listas de preferências, como a que segue abaixo, não tenho o intuito de apresentar um rol fixo de filmes superiores a todos os demais ou sequer colacionar títulos representativos de um ou outro estilo que mais agrade a determinado público. Minha intenção é manifestamente outra: quero, apenas, registrar alguns bons filmes  em sua maioria, filmes extraordinários  que, em determinado momento da minha vida, causaram-me tamanho impacto que puderam ser classificados como os "melhores do mundo".

Tendo sido importantes para mim, espero que esses filmes sejam ao menos interessantes para vocês, leitores de mente curiosa, coração inquieto, espírito aberto e gostos refinados. Ainda mais, entusiasmado com tal compartilhamento de experiências cinematográficas, convido-os a registrar nos comentários suas próprias listas de melhores filmes, bem como suas impressões a respeito dos singulares títulos que escolhi para esta postagem. Fazer listagens assim, mesmo que despretensiosas e com pouco rigor, ajuda a pôr a mente em funcionamento e aguça nosso senso crítico de espectadores, além de ser tremendamente divertido!

E, antes de ver a lista (que está em ordem alfabética, e não de preferência), sugiro que vocês se certifiquem de já ter lido a parte 1 e a parte 2 dos "melhores filmes do mundo", já publicadas aqui no blog.

Vamos lá!

01 – A Bruxa (The Witch, 2016)
Sei que é arriscado iniciar uma lista de melhores filmes de todos os tempos com uma obra tão recente, em especial uma que causou tanta controvérsia entre os espectadores quanto A Bruxa. Apesar das polêmicas, não tenho dúvidas de que A Bruxa está, no mínimo, entre os dez melhores filmes de terror já produzidos, ao lado de clássicos como O Exorcista, O Bebê de Rosemary e O Iluminado. Isso porque A Bruxa é um filme extremamente sério e bem realizado, de rica simbologia e verossimilhança, alicerçado em um terror insidioso (e não em um horror espalhafatoso) que espreita difusamente na região em que as pessoas são mais vulneráveis: o imaginário, com as crenças e fantasias que compõem o substrato essencial da psicologia humana. Pouquíssimos filmes conseguiram perscrutar com tamanha agudeza os meandros da alma humana quanto este A Bruxa – e, aqui, estou comparando-o a obras genuinamente artísticas como as de um Bergman, de um Godard ou de um Tarkovsky.

02 – Canibais (Undead, 2003)
Um ano antes de a refilmagem de O Despertar dos Mortos (a.k.a.: Madrugada dos Mortos) reavivar o interesse popular nos zumbis e transformar essas criaturas semi-decompostas numa febre cultural que vem infestando ad nauseam as mídias de entretenimento, dois irmãos cinéfilos da Austrália realizaram uma pérola impagável dos filmes trash sobre mortos-vivos. Undead, dos Spierig Brothers, lançado no Brasil com o impreciso título "Canibais", foi o primeiro filme de terror de baixa produção a que eu assisti na vida e, logo de cara, com suas cabeças explodindo e sangue jorrando aos montes numa quase-dança de deleitosa carnificina, inscreveu sua marca de forma indelével em minha apaixonada memória de fanático em filmes de terror, conquistando meu coração como um verdadeiro primeiro amor. Talvez Canibais não seja um filme perfeito ou sequer, para a maioria das pessoas, a obra divertidíssima que é para mim, mas um fato é inegável: a criatividade das cenas de ação e o ar de mistério que paira na atmosfera de Canibais justificam por si só o sucesso que os irmãos Spierig vieram a obter nos anos seguintes, passando a dirigir ótimos filmes hollywoodianos de orçamento bem mais generoso, como 2019: O Ano da Extinção (2009) e O Predestinado (2014).

03  Corrente do Mal (It Follows, 2014)
Eis aqui um portento da criatividade no terror sobrenatural! Corrente do Mal tem uma das premissas mais inventivas das "histórias de fantasmas" recentes, sendo de uma fecundidade admirável. Não falarei qual é essa premissa para não atrapalhar a experiência daqueles que pretendem assistir ao filme, mas tenho de deixar registrado que a simplicidade genial dessa premissa é daquelas que nos fazem ficar inconformados, refletindo: "como ninguém pensou nisso antes?". Faço apenas uma advertência: Corrente do Mal é o tipo de filme ame-ou-odeie, de modo que, se você não estiver disposto a "entrar na brincadeira" proposta pelo longa-metragem, fatalmente você vai se frustrar e achar que não passa de um filme bobinho.

04  Cubo (Cube, 1997)
Esse longa-metragem canadense de baixo orçamento (o que é inacreditável, tendo em vista que consegue atingir um resultado prático hiper-eficiente) é um dos filmes que eu mais gostaria de ter escrito e dirigido. Sem qualquer explicação prévia, um homem acorda dentro de um quarto cúbico e, aos poucos, encontrando pessoas que estão na mesma situação que ele, descobre estar preso em um enorme cubo subdividido em cubos menores que têm passagens entre si no centro de cada uma de suas seis faces internas (interligações através das quatro paredes, do teto e do chão). Para piorar, esse ambiente claustrofóbico está cheio de armadilhas fatais – e não há garantia nenhuma de que exista uma saída. Com esse promissor ponto de partida, Cubo, apesar de não fazer nenhuma referência direta a Kafka ou a Borges, tem evidentes relações temáticas e estruturais com a obra desses dois escritores do realismo fantástico. Focando-se mais no poder das perguntas do que na simplicidade das respostas, Cubo traz, em uma abordagem engenhosa e permeada por associações matemáticas, reflexões desconcertantes a respeito das relações humanas e do sentido da existência.

05  Dublê de Corpo (Body Double, 1984)
O prazer de se assistir a determinados filmes pode ser abstratamente mensurado em proporção à vontade que se tem de nunca mais abandonar o universo apresentado na tela. No caso de Dublê de Corpo, sua realidade comicamente absurda – mas cinematograficamente verossímil – fez com que eu tivesse vontade de passar pelo menos mais duas, três, quinze horas acompanhando os devaneios voyeurísticos primorosamente transformados em cinema por Brian De Palma. Trata-se de um filme que segue a tradição formal-fetichista de Alfred Hitchcock e Dario Argento, mas que dá vários passos além no sentido de homenagear, parodiar, brincar, reinventar e explorar os limites estéticos e até existenciais da sétima arte. Pois a grande genialidade de Dublê de Corpo é esta: criar um mundo que não apenas existe no cinema, mas que só pode existir no cinema, já que é feito do cinema, pelo cinema e para o cinema, numa sublimação estética que não pode ser traduzida em palavras. Qualifico essa obra-prima como um thriller burlesco, parnasiano e excêntrico que reluz a essência mais autêntica do cinema em cada cena, em cada frame, em cada nota da trilha-sonora. Um primor!

06 – El Topo (Idem, 1970)
Entrar em contato com a magistral obra de Alejandro Jodorowsky – o cineasta, escritor, poeta, tarólogo, místico e psicomago responsável pela criação de El Topo – já é motivo mais do que suficiente para se assistir a esse filme. Tem-se, nesse violento longa-metragem, um faroeste espiritual surrealista capaz de transformar uma vida.

07  Ensaio de um Crime (Ensayo de un Crimen, 1955)
Um filme de Luis Buñuel sobre um serial killer que, por mil e uma eventualidades, nunca consegue cometer os assassinatos que planeja. É interessante notar como o talento cinematográfico de Buñuel foi capaz de antecipar em pelo menos uma década diversos recursos estilísticos que viriam a ser utilizador em filmes de suspense whodunit (filmes sobre assassinos em série em que a principal diversão é tentar descobrir quem está causando as mortes), em especial do subgênero giallo (vide semelhanças de Ensaio de um Crime com Prelúdio para Matar, por exemplo).

08 – Estrada Perdida (Lost Highway, 1997)
David Lynch sendo David Lynch! Um noir surrealista impagável. Uma viagem sensorial de dar nó na mente. Um filme, como todos os do diretor, para ser sentido, experimentado, vivenciado e, principalmente, sonhado pelos labirintos da (in)consciência.

09 – Janela Indiscreta (Rear Window, 1954)
Para mim, este é o melhor filme que Alfred Hitchcock já realizou, superior até mesmo ao impressionante Psicose e ao tão idolatrado Um Corpo que Cai. Tudo em Janela Indiscreta é impecável e astutamente superior à grande maioria dos thrillers em geral: o roteiro intricado e sem pontas soltas, os personagens dotados de exemplar tridimensionalidade, a estética hipnoticamente imersiva, as sutilezas narrativas escondidas em cada janela e em cada enquadramento, os recursos técnicos sabiamente utilizados para construir um universo sólido, cativante e hermético, as soluções estritamente audiovisuais desenvolvidas para cada particularidade da trama e os diálogos que, apesar de descontraídos, sempre acrescentam algo à profundidade dos personagens e à urdidura da trama, com suspense crescente e inquietante. Acima de tudo, é divertidíssimo passar duas horas em um apartamento com James Stewart e Grace Kelly em meio a um mistério que pode ou não ter base na realidade.

10  Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971)
Esse dispensa apresentações. Clássico absoluto dirigido por Stanley Kubrick. Tão bom – em verdade: ainda melhor – do que toda a fama que tem e do que tudo o que já foi dito sobre ele. Alex DeLarge (cujo primeiro nome é um trocadilho com a expressão latina "a-lex", ou seja, "sem lei") é um dos personagens mais icônicos da história do cinema, e cada mínimo detalhe desse filme é não menos do que embasbacantemente extraordinário.

11 – Mansão do Inferno (Inferno, 1980)
Dando continuidade ao terror multicolorido de Suspiria (1977), Dario Argento criou esse esplendor que eu considero a apoteose dos filmes do gênero: Mansão do Inferno é uma viagem lisérgica, sensorial e infra-lógica de pavor e deslumbramento ininterruptos através do que de melhor há na fantasia macabra.

12 – Meu filho, meu filho, o que você fez? (My son, my son, what have ye done?, 2009)
Também conhecido como "A Mente de um Assassino", Meu filho, meu filho, o que você fez? foi dirigido e produzido por dois dos cineastas que eu mais admiro: Werner Herzog (Aguirre, Fitzcarraldo) e David Lynch (Eraserhead, Veludo Azul), respectivamente. Compreensivelmente pouco conhecido, porque é bem esquisito, esse filme merece uma digressão de minha parte para explicar por que não sei falar sobre ele (tenham paciência com minhas divagações, caros leitores; hoje eu estou com a cachorra!): quando se estuda gramática, aprende-se que alguns adjetivos não admitem comparação, pois se referem a valores absolutos. Por exemplo: não se pode dizer "mais morto" ou "mais perfeito" – ou se está morto ou não se está; ou algo é perfeito ou não é: isso pelo menos em tese, uma vez que a imaginação humana já concebeu os mortos-vivos, que inegavelmente são criaturas "menos mortas" que os mortos-morridos (mas agora não é hora de adentrarmos nas sinuosidades plurívocas da semântica). A palavra "peculiar" é mais um desses valores absolutos, sendo um adjetivo que não comporta comparações: ou um filme é peculiar ou não é, sem meio-termo. Ainda assim, de alguma forma que eu não sei explicar (e talvez nem queire explicar), Meu filho, meu filho, o que você fez? é "mais peculiar" do que os outros, embora seja sutil em sua extravagância e não contenha bizarrices escatológicas como as presentes na filmografia de um Fernando Arrabal, por exemplo. Assista por sua própria conta e risco – e não me julgue depois.

13 – Nosferatu: O Vampiro da Noite (Nosferatu: Phantom der Nacht, 1979)
Werner Herzog (ele de novo!), nessa respeitosa releitura do clássico Nosferatu, de 1922, criou o filme que mais perto chegou de fazer o expectador de sentir, num ponto de vista espírito-existencial, como um solitário vampiro que vive se escondendo da luz, das pessoas e da passagem dos séculos. O clima lento, macabro e obscuro de Nosferatu: O Vampiro da Noite faz com que esta seja uma das obras de arte em que o goticismo se apresenta em sua mais pura forma. O longa-metragem possui poucos diálogos, pouca ação e pouco movimento, mas sua plasticidade ímpar, aliada à composição sonora soturnamente atmosférica, cria uma força hipnotizante capaz de induzir as almas mais sensíveis a um transe vampiresco sem igual.

14 – O Abutre (Nightcrawler, 2014)
Jake Gyllenhaal é, sem dúvida, um dos melhores atores da nossa geração. Em O Abutre, o ator interpreta Louis Bloom, um homem frio e inescrupuloso que passa a fazer serviços de freelancer para o jornalismo criminal de Los Angeles. Com a câmera sempre ligada nas madrugadas para registrar acidentes automobilísticos, assassinatos e todo tipo de sanguinolência sensacionalista para depois vender as imagens a veículos de comunicação, Bloom aprende a seguir fórmulas cada vez mais imorais para conseguir resultados superiores aos de seus concorrentes. Com isso, além de vários outros méritos que não cumpre mencionarmos aqui, O Abutre não só critica o apetite do público por notícias grotescas a respeito da desgraça alheia, mas também questiona as estruturas pelas quais o jornalismo (por extensão, todo o ramo empresarial) norte-americano se desenvolveu, passando a exigir imoralidade e quase psicopatia daqueles que pretendem obter sucesso em meio à lei do mais forte do mundo dos negócios.

15 – O Sanatório Clepsidra (Sanatorium pod Klepsydra, 1973)
Outro filme esquisitíssimo e incomparável. Sobre ele, já falei com profundidade em uma matéria aqui no blog (clique aqui para ler a matéria). Desconheço se algum outro filme de temática e estética tão estranhas já foi filmado com tanto esmero técnico quanto O Sanatório Clepsidra, mas sou levado a crer que para esse fenômeno não existem paralelos.

16 – Onde os Fracos não Têm Vez (No Country for Old Man, 2007)
Os irmãos Coen superaram todas as expectativas ao levar às telas o formidável romance No Country for Old Men, de Cormac Mccarthy: o resultado foi um filme de ação tenso e intenso de primeiríssima qualidade. Absolutamente imperdível!

17 – Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971)
"Eu sei o que você está pensando: ‘ele deu seis tiros ou apenas cinco?’. Bem, para dizer a verdade, com todo esse alvoroço eu mesmo perdi a conta. Mas, sendo esta uma Magnum 44, a arma de mão mais poderosa do mundo, capaz de explodir sua cabeça fácil, fácil, você deve se fazer a seguinte pergunta: ‘Estou me sentindo com sorte?’. E então, você está, idiota?". – Sozinho, esse monólogo de Clint Eastwood na pele do policial durão Harry Callahan, proferido contra um dos bandidos que têm o azar de cruzar seu caminho, já justifica a inclusão do filme nesta lista. Embora Perseguidor Implacável não seja o melhor filme policial de todos os tempos, ele é um dos precursores dos melhores, então entrou na lista em caráter simbólico, por respeito. Portanto, sem lenga-lenga: vá em frente, faça o seu dia e assista aos cinco filmes da série Dirty Harry! 

18 – Salário do Medo (La Salaire de la Peur, 1953)
Suspense cheio de tensão sobre quatro homens que, por estradas acidentadas e ziguezagueantes, veem-se obrigados a transportar nitroglicerina em dois caminhões que estão em condições precárias (para quem não sabe, nitroglicerina é uma substância líquida instável que pode explodir com qualquer trepidação um pouco mais forte, e só algumas poucas gotas dela já são suficientes para fazer em pedaços e levar aos ares um bloco grande de concreto).
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E quanto a vocês? Quais são seus filmes favoritos? Registrem nos comentários suas listas!
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Clique aqui para ler a primeira parte da lista e aqui para ler a segunda parte.

Bônus: os cinco filmes que mais me perturbaram.

2 comentários:

  1. Ótima seleção.Vi metade. Grande abraço.

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    1. Vá assistindo à outra metade conforme for tendo tempo, Artur! Vale a pena :)

      Abração!

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