terça-feira, 1 de setembro de 2015

Tradução e análise do poema "Eldorado", de Edgar Allan Poe

ELDORADO, de Edgar Allan Poe
Tradução de Melvin Menoviks.

Galantemente vestido,
Um cavaleiro destemido,
Ao sol e à sombra,
Travou longas viagens,
De canções, entoando passagens,
Em busca de Eldorado.

Mas dele se aproximava a morte –
Desse cavaleiro antes tão forte –
E sobre seu coração caiu uma sombra
Quando ele percebeu não encontrar
Nem terra, nem água, nem ar
Que se parecesse com Eldorado.

E, com suas forças se exaurindo,
Seu vigor e sua alma já se partindo,
Ele encontrou uma peregrinante sombra –
“Sombra”, pôs-se ele a perguntar,
“Onde é que pode estar –
Essa terra de Eldorado?”

“Acima das montanhas
da Lua,
Abaixo do Vale da Sombra,
Cavalgue, bravamente cavalgue”,
Respondeu a negra silhueta –
“Se você busca Eldorado!”

***

No poema em questão (cujo título provém da antiga lenda indígena sobre uma cidade inteira feita de ouro), um cavaleiro galante de ares românticos viaja em busca da terra de Eldorado, lugar que sempre parece distante e para o qual, a princípio, não temos nenhuma referência. O cavaleiro gasta grande parte de sua vida nessa jornada, até que, já na velhice, uma sombra peregrina lhe aponta o caminho, o qual vem misteriosamente expressado na última estrofe: “Acima das montanhas da Lua, abaixo do Vale da Sombra, cavalgue, bravamente cavalgue, se você busca Eldorado”. Esse enigma intrigante – verdadeira charada espiritual –, lembra muito uma conhecida frase de Jung, escrita vários anos depois: “qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos”. Em outras palavras: aquele que almeja a felicidade e os sentimentos mais sublimes deve ser capaz de passar por grandes sofrimentos. Em similar sentido, disse Freud que “se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte”. E foi o próprio Poe quem escreveu que “para se ser feliz até um certo ponto, é preciso ter-se sofrido até esse mesmo ponto”. Será?
É curioso saber que Poe escreveu esse poema em 1849, época da “Corrida do Ouro” na Califórnia, o que nos leva a acreditar que o poema tenha sido uma reação do autor ao evento, em uma espécie de desdém ou advertência a respeito da futilidade das coisas materiais se não acompanhadas da plenitude de espírito.

Quanto à forma, o poema (tanto no original quanto na minha tradução) é composto por quatro estrofes de seis versos (sextetos) em que, à exceção da última, há rima entre os dois primeiros versos e entre o quarto e o quinto versos. No final do terceiro e do último versos de cada estrofe, respectivamente, aparecem sempre as palavras “sombra” (“shadow”) e “Eldorado”, o que cria, em alternância às rimas emparelhadas, uma cadência cíclica e bastante sonora que busquei preservar na tradução.

Uma das particularidades mais interessantes do poema é justamente a repetição, no meio de cada estrofe, da palavra “sombra”, sendo que em cada ocorrência o termo assume um significado diferente: na primeira estrofe, a sombra se refere à escuridão física propriamente dita; na segunda, possui um significado metafórico em relação à angústia que se abate sobre o coração do personagem; na terceira, a sombra é um ser misterioso que peregrinava pelo caminho do cavaleiro; por fim, o termo está presente na expressão “O Vale da Sombra”, que, em clara referência ao “Vale da Sombra da Morte” (salmo 23, recorrente na obra do Poe), possivelmente simboliza aquela a quem Manuel Bandeira chamou de “a indesejada das gentes” (ou seja, a própria morte). Tal referência sugere que “Eldorado” – a riqueza suprema ou a felicidade completa, talvez? – não existe no mundo dos vivos, no reino físico das matérias, mas em algum plano mais espiritual, ideal. Talvez signifique, também, que aqueles que vivem apenas em idealizações não encontram senão decepções e desgostos: um bom estímulo para aprendermos a aceitar a realidade tal qual ela é, e não como queríamos que ela fosse.
– Para ler as considerações que eu fiz sobre a tradução de poemas, clique aqui.– Para ler a tradução que eu fiz de "The Lighthouse", o conto inacabado de Edgar Allan Poe, clique aqui.

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