quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Entrevista com R. F. LUCCHETTI

Nesta semana, tive o enorme prazer de conversar com o grande escritor Rubens Francisco Lucchetti, uma verdadeira lenda viva das páginas brasileiras do terror, da fantasia e do mistério, além de um senhor simpático, apaixonado pelo que faz e sempre atencioso com os fãs.

Talvez você ainda não o conheça pelo nome (afinal, grande parte de sua obra foi escrita sob os mais variados pseudônimos, tais quais: Theodore Field, Terence Gray, R. Bava, Brian Stockle, Vincent Lugosi e até mesmo Mary Shelby), mas certamente você já sentiu alguma influência do universo fantástico da vasta produção literária desse intrigante senhor fã de Edgar Allan Poe e Sir Arthur Conan Doyle.
Um dos muitos livros de R. F. Lucchetti, o "Papa da Pulp fiction"
Da máquina de escrever e do teclado do computador de R. F. Lucchetti constantemente saem frases poderosas  e sinceras  como "o horror nasceu comigo, está no meu DNA", "antes mesmo de ter o conhecimento da palavra, eu já tinha predileção pelo Fantástico" e "quando escrevo, mergulho em meu universo. Então, sou um deus: crio e destruo; e o mundo real, o qual abomino, passa a não existir".

R. F. Lucchetti é um legítimo autor pulp: talvez o primeiro (e único) autor pulp do Brasil e, infelizmente, um dos últimos do mundo. Nas palavras do ficcionista, "o pulp tem algo só dele: nas histórias, as cenas se sobrepõem ao enredo".
Os livros pulp normalmente são feitos de papéis baratos e trazem contos de terror, mistério, ficção científica e histórias de detetives (literatura noir)
Segue, agora, a agradável conversa que tive com esse notável ficcionista cujo corpo é brasileiro, mas cuja alma pertence ao infinito reino dos mistérios, da fantasia e da imaginação:

MELVIN MENOVIKS: Olá, Rubens. Creio que não preciso dizer que é um enorme prazer poder entrevistá-lo para o blog e que eu sou um grande admirador da sua obra, a qual vem me conquistando mais e mais a cada dia. Ter a oportunidade de poder conhecer mais a fundo suas experiências é como aprender os segredos de uma complexa arte com um verdadeiro mestre.

Então, vamos às perguntas: há quantos anos o senhor vem se dedicando à escrita ficcional? É verdade que já publicou mais de mil e quinhentos livros?

RUBENS FRANCISCO LUCCHETTI: Antes de mais nada, quero agradecê-lo por estar me entrevistando.

Eu escrevo praticamente desde que aprendi a escrever, por volta de 1939-1940. Tenho cadastrados 1.547 livros sob encomenda (todos publicados com pseudônimos e heterônimos) e mais uns trinta publicados com o meu nome.

M.M.: A ficção de horror é uma vertente muito peculiar na literatura e no cinema. Há pessoas que a amam muito intensamente e há aquelas que simplesmente não conseguem entender por que alguém se interessaria por histórias de vampiros, fantasmas, bruxas, demônios e assassinos em série. Trata-se de algo inexplicável e que reside nos recessos mais profundos do coração. Pensando nisso, fico curioso: quando começou a sua paixão pelo terror e pelo fantástico?

R.F.L.: Essas coisas nascem com a gente. É como aqueles que preferem histórias Épicas ou de Aventura. Sempre que me fazem essa pergunta, eu me recordo dos contos infantis. Elas não são repletas de bruxas, duendes, castelos assombrados? Não sei como é hoje; mas, quando eu era criança, minha mãe costumava dizer: Não faça nenhuma traquinagem, senão o homem do saco vem te buscar! Para mim, o horror e o fantástico fazem parte do cotidiano; basta você olhar o que acontece em torno da gente. Não é fantástico um avião de peso enorme levantar voo? Ou esse robô colhendo e mandando material e informações de Marte? Tudo isso é simplesmente fantástico. É maravilhoso!

M.M.: Já fiz duas matérias aqui no blog a respeito da importância da ficção de horror na vida das pessoas (a primeira pode ser lida aqui, e a segunda, aqui). Em linhas gerais, para que o senhor acha que existe a fantasia macabra?

R.F.L.: Para mim, a fantasia macabra existe para nos divertir. Que outro motivo poderia ter?

M.M.: O senhor me disse, certa vez, que “os livros são como filhos”. Lembro-me de ter concordado pronta e plenamente com essa afirmação e, apesar de eu mesmo não ser capaz de fazer muitas comparações entre meus contos, assim como um pai não consegue julgar de qual filho ele gosta mais, preciso lhe fazer essa pergunta maligna: para o senhor, quais são os seus melhores livros? Existe algum de que o senhor não gosta? Por quê?

R.F.L.: O livro de minha predileção é um que se encontra inédito até hoje. Intitula-se Música Secreta. Dele só foi publicado, em 1952, um excerto. Foram impressos cem exemplares por minha conta. Os que eu menos aprecio são todos que escrevi sob encomenda, pois tive de escrever apenas o que os editores pediam.

M.M.: Quais são as principais influências e inspirações para os seus trabalhos?

R.F.L.: As principais influências e inspirações do meu trabalho são as histórias de Edgar Allan Poe e sir Arthur Conan Doyle.

M.M.: Quais são seus escritores favoritos na literatura mundial? E entre os autores brasileiros, quais os que o senhor mais admira? Há algum escritor brasileiro vivo que o senhor considera excepcionalmente bom?

R.F.L.: Escritores estrangeiros: Poe, Conan Doyle, Maurice Leblanc, Gaston Leroux, Rudyard Kipling, Alphonse Daudet, Mark Twain, Guy de Maupassant, Pitigrilli, John Dickson Carr, G. K. Chesterton, Agatha Christie, Sheridan Le Fanu, M. R. James, Bram Stoker, Jorge Luis Borges, Émile Zola, Dostoievski, Robert Louis Stevenson, J. R. R. Tolkien, Charles Dickens; gosto dos poetas de língua árabe (Amaru, Saadi, Omar Khayyán...), do poeta indiano Rabindranath Tagore e do poeta norte-americano Walt Whitman. Quanto aos autores brasileiros: Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, Dyonélio Machado, Josué Guimarães, Humberto de Campos, Benjamin Costallat, João de Minas, João do Rio, Afonso Schmidt, Mario Graciotti, Machado de Assis, Lúcio Cardoso e os poetas Judas Isgorogota, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia. Há dois autores que são obrigatórios todo brasileiro ler: Gilberto Freyre e Euclides da Cunha. Quero acrescentar outro autor obrigatório: o holandês Hendrik W. Van Loon, cujos livros foram publicados no Brasil pela Livraria do Globo, de Porto Alegre.

Você me pergunta também se há algum escritor brasileiro vivo que eu considero excepcionalmente bom. Há, sim. Na verdade é uma escritora: Mariana Portella, autora do romance O Outro Lado da Sombra.

M.M.: E no cinema, quais os artistas de que o senhor mais gosta?

R.F.L.: Na verdade, há uma legião de atores e atrizes de que eu gosto. Vou citar algumas e alguns: Deanna Durbin, Theresa Russell, Gail Russell, Grace Kelly, Doris Day, Romy Schneider, Maria Montez, Kim Novak, Michèle Morgan, Barbara Steele, Nicole Kidman, Nastassja Kinski, Priscilla Lane, Jacqueline Bissett, Ella Raines, Ruth Roman, Lauren Bacall, Veronica Lake, Maria Schell, Marguerite Chapman, Audrey Totter, Claire Trevor, Gene Tierney, Debra Paget, Rita Hayworth, Patricia Neal, Charles Chaplin, Humphrey Bogart, Peter Lorre, Sidney Greenstreet, Laird Cregar, Cary Grant, Jean-Paul Belmondo, Paul Newman, Vincent Price, Lon Chaney (pai e filho), Bela Lugosi, Boris Karloff, Burt Lancaster, Totò, Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Edward G. Robinson, Alan Ladd, James Cagney, Claude Rains, Orson Welles, Charles Laughton, Basil Rathbone, Nigel Bruce, Laurence Olivier, Orson Welles, David Jansen, Rock Hudson, Yves Montand, sem esquecer de O Gordo e o Magro e os Irmãos Marx.

M.M.: O senhor gosta de música? O que costuma ouvir?

R.F.L.: É lógico que gosto de música. Gosto da boa música, da música que nos transmite algum tipo de emoção. Costumo ouvir música erudita e música orquestrada.

M.M.: Para minha surpresa, vi no seu facebook que o senhor não se considera propriamente um escritor, mas um ficcionista. Qual é a diferença entre um e outro, e por que o senhor não se considera um escritor?

R.F.L.: Eu me considero um ficcionista. Tudo o que escrevo é ficção. Não escrevo sobre o mundo real. Escrevo sobre o meu mundo. E não habito o mundo real, o qual detesto. Habito um universo povoado por múmias, vampiros, lobisomens, monstros vindos de regiões abissais ou do além, mortos-vivos, fantasmas, damas fatais, detetives particulares, mulheres misteriosas. Em meu mundo, sempre é noite e as ruas são becos escuros e encobertos por um eterno nevoeiro. Em meu mundo, cada esquina esconde um mistério.

M.M.: Li, no excelente livro “Conversações com R. F. Lucchetti”, do Rafael Spaca, que o senhor é uma pessoa tímida e relativamente reclusa. Identifiquei-me muito com isso, pois também tenho certa tendência a me afastar das outras pessoas e uma considerável dificuldade em me relacionar em alguns grupos. No entanto, parece-me que, para sobreviver no universo da literatura em nosso país, é indispensável que a pessoa seja bem relacionada e não tenha hesitações para se expor publicamente. Como o senhor conseguiu construir uma carreira tão prolífica na sua área sendo tímido?

R.F.L.: Acho que minha carreira não tem nada a ver com a minha timidez. Penso até que foi o fato de eu gostar de ser um recluso que me levou a ser um ficcionista. Porque para ser um ficcionista, você não precisa de mais ninguém, a não ser você mesmo. E só agora, às vésperas de completar 86 anos de idade, foi que comecei a relacionar-me com o meu público. Nem tinha consciência do grande número de pessoas que me conhecem e que são minhas fãs.
"Conversações com R. F. Lucchetti": livro altamente indicado para quem ficou curioso sobre o "Papa da pulp fiction no Brasil"
M.M.: Já houve algum momento de sua vida em que o senhor teve dúvidas sobre a sua própria capacidade artística ou se valia a pena se dedicar à literatura em um país em que tão pouca gente lê? Em suma: já passou pelas tão temidas “crises criativas e existenciais”? Se sim, como as superou?

R.F.L.: Pobre não pode ter crise existencial. Isso é coisa para rico. Pobre não precisa de sessões de psiquiatra. Como sempre fui pobre, nunca tive crise existencial. Quanto a crises de criatividade, às vezes elas acontecem.

Agora, quero destacar que escrever é algo que tem de ser feito cotidianamente, faça sol ou chuva, calor ou frio. Escrever, para mim, é uma terapia: eu me livro dos meus traumas.

M.M.: Tenho certeza de que o senhor recebe elogios constantes por seus escritos. Mas e o oposto: o senhor já se deparou com pessoas que menosprezaram o seu trabalho? Se sim, como lidou isso?

R.F.L.: Como não? Já me deparei com vários “amigos” que menosprezaram meu trabalho. Teve um que, quando chegou a prova da capa do meu primeiro livro, fui mostrar para ele. O sujeito olhou para o impresso e disse, com cara de nojo: “É, está mais ou menos.” Então, pensei: “Aí, vagabundo, como você não conseguiu nada em matéria de literatura, está menosprezando aqueles que conseguiram alguma coisa.” A partir de então, passei a vê-lo com a mesma simpatia de quem olha para um poste.

M.M.: Imagino que deve lhe entristecer muito quando alguém não gosta tanto de alguma história sua. Mas, pelos seus comentários no facebook, percebo que um simples comentário lisonjeiro e sincero de um fã é capaz de alegrar seu dia com uma luz especial e maravilhosa. Creio que somos muito parecidos nesse ponto também, pois poucas coisas tornam meu dia tão feliz quanto descobrir que alguém está se divertindo com alguma de minhas histórias. Mas me diga uma coisa: se tivesse de escolher (e essa é outra daquelas perguntas malignas), o senhor preferiria ter poucos leitores, mas leitores que realmente amam seus escritos, ou uma multidão de leitores que apenas gosta deles?

R.F.L.: Eu escrevo para o meu divertimento. Depois, para os outros. E, se esses outros se divertirem com o que eu escrevo, é lógico que eu fico satisfeito. Mas, infelizmente, você não pode agradar todo mundo. Sempre haverá os descontentes. Criei uma página no facebook há exatamente um ano e estou impressionado com os amigos virtuais que estou encontrando. Isso veio dar um novo sentido e um novo alento à minha vida. Aliás, mudou a minha vida. Tenho alguns amigos e algumas amigas que parece que os (as) conheço desde a mais tenra idade. Em contrapartida, não consigo lembrar o nome de um só colega de escola ou de infância. E meu maior desejo é que aqueles que apreciam o meu trabalho o façam com sinceridade.

M.M.: Com sua vasta experiência, o senhor certamente já deve ter se deparado com todo o tipo de gente, desde profissionais competentes e dedicados que acreditam e amam o que fazem até tratantes que só querem tirar proveito das oportunidades e que só conseguem tentar nos arrastar para baixo com eles. O senhor tem algum caso interessante para contar sobre isso? De tudo o que o senhor aprendeu em sua trajetória, o que poderia compartilhar com a gente?

R.F.L.: Conheci os mais diversos tipos de pessoas no ramo editorial e no ramo cinematográfico. Por coincidência, estou há mais de um mês organizando toda a minha correspondência. Encontrei cartas que já estavam esquecidas. Se eu fosse levar muitas delas a sério, nunca teria me dedicado a nada, nunca teria escrito nem uma linha sequer. Isso porque sempre me dediquei a escrever histórias de gêneros totalmente estranhos à nossa cultura. Sem contar aqueles que prometiam cantos de sereia. Vigaristas e picaretas você encontra em todos os lugares. Somente há pouco mais de um ano encontrei uma editora – a Editorial Corvo – que me valorizou, inclusive dando o meu nome ao título de uma coleção de livros.
Os dois primeiros volumes da Coleção R. F. Lucchetti, publicados pela Editorial Corvo
M.M.: Que mensagem o senhor pode deixar para os novos escritores de nosso país?

R.F.L.: Perseverar sempre. Não esmorecer nunca. É como disse a atriz Sharon Stone: “O importante é você saber aonde quer ir.” Vá em frente e siga o seu coração!

M.M.: Rubens, muito obrigado pela disponibilidade e paciência. Foi um prazer enorme e uma experiência extremamente enriquecedora conversar com o senhor. Grandes abraços.

R.F.L.: Um grande abraço.
Para conhecer ainda mais sobre R. F. Lucchetti, recomendo, além da página dele no facebook, o site www.rflucchetti.com.br, a página sobre ele no Wikipedia e, ainda, o interessante livro "Conversações com R. F. Lucchetti", do Rafael Spaca (entre em contato com o autor para saber como adquiri-lo). Para comprar algum livro da excelente coleção R. F. Lucchetti, adicione-o no facebook (aqui está o link) e encomende o livro diretamente com ele. O Sr. Lucchetti responde pessoalmente a todas as mensagens. E, se você não souber por qual livro começar, eu recomendo, em especial, os títulos "Máscaras do Pavor", "O Museu dos Horrores" e o divertidíssimo "O Fantasma de Tio William" (publicado na famosa Coleção Vaga-Lume, da Editora Ática).

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