sábado, 21 de janeiro de 2017

COMO ESCREVER? (OU: POR QUE ESCREVER?)


COMO ESCREVER? (OU: POR QUE ESCREVER?)
“Não há nada pior do que dar longas pernas para pequenas ideias” – Machado de Assis
Toda experiência, por menor que seja, traz consigo algum tipo de aprendizagem que reflete, em certo grau, uma sabedoria muito maior do que a própria experiência que lhe deu causa: uma sabedoria infinita que nos transcende e da qual só temos acesso parcial por meio de associações, representações, inferências e metáforas. Essa aprendizagem, contudo, filtrada e destilada não só pela razão, mas, principalmente, pelas nossas vivências, pelo nosso temperamento e por tudo aquilo que nos faz seres animados e racionais, precisa de estímulo para se desenvolver e tempo para se consolidar, funcionando da mesma maneira que uma semente plantada no solo invisível que é o nosso espírito. Assim, não seria exagero manter a analogia afirmando que esse estímulo e esse tempo são, respectivamente, os nutrientes e a irrigação que condicionam o crescimento da semente: são os fatores imprescindíveis para a maturação da aprendizagem, mas que, por comodismo, desatenção ou simples desinteresse, nem sempre permitimos que existam, deixando de estimular o estímulo ou de dar tempo ao tempo, como sugere a sabedoria popular.

Digo essas palavras prefaciais, aparentemente desnecessárias para o tema a que me proponho neste texto, para enfatizar a veracidade de um truísmo do qual às vezes nos esquecemos ou de que muitas vezes desdenhamos: o acaso traz tesouros, e valiosas lições se escondem nos acontecimentos do dia-a-dia.

Hoje mesmo, tive uma experiência cuja aprendizagem poderia ter me passado despercebida, mas que, tendo sido significativa para mim, resolvi compartilhar aqui para que ela possa, também, vir a ser válida para os demais, em especial para aqueles que, tal como eu, levam a caneta ao papel com um intuito maior do apenas rabiscar palavras, seja por prazer ou por obrigação.

Há algumas horas, um grande amigo meu – um daqueles que podemos até ter conhecido depois de certa idade, mas que ainda assim valem como se fossem de infância (e todos nós sabemos que, quanto mais velhos ficamos, mais difícil é fazer amigos de infância) – confidenciou a mim que resolveu dar seus primeiros passos na criação literária: resolveu, enfim, começar a escrever ficção. Ainda derrapando nas inseguranças da inexperiência (as quais, assegurei a ele, nunca desaparecem por completo, só mudam de forma e, na melhor das hipóteses, são adestradas como um cavalo bravo que preparamos para a montaria), esse amigo veio a mim pedindo algumas dicas para escrever melhor.

Embora eu seja uma gota d´água nesse vastíssimo oceano chamado literatura, eu não poderia deixar meu amigo a ver navios. Por isso, tencionando colocá-lo além da segurança improdutiva da areia da praia, mas sem arremessá-lo de supetão em alto-mar, preparei para ele duas ou três páginas compilando e sintetizando as principais dicas que me vinham à mente sobre produção literária, com todas aquelas técnicas que aprendi ou das quais ouvi falar ao longo da minha pequena experiência no assunto. Enviei-lhe o texto, tratando sobre preparação teórica, desenvolvimento de personagens, estruturas narrativas, figuras de linguagem, ritmo textual, gramática, semântica, sintaxe, treinamento, exercícios, dedicação, afinidade com o idioma, potencialização da criatividade, refinamento do senso poético, etc., etc., etc., e ele, tendo considerado muito úteis as informações, sugeriu de imediato que eu as publicasse aqui no blog.

Num primeiro momento, achei a ideia fantástica, pois, com certeza, seria uma publicação que atrairia vários leitores e aumentaria em muito as visitas no blog. Seria o tipo de material ideal para seduzir o público.

Depois, pensei: “ora, as dicas que elenquei no texto são interessantes e até bem importantes para alguém que pretenda se profissionalizar no ramo do entretenimento, mas é o tipo de coisa que pode ser encontrada em qualquer artigo sobre escrita criativa. Não é nada mais do que aquilo que se pode achar, com maior credibilidade e explicado de forma bem mais eficiente, num livro como Sobre a Escrita, do Stephen King, ou em algum daqueles cursos para escritores que existem pela internet afora (um que recomendo para os interessados, aliás, é o do Vivendo de Inventar, do André Vianco). Além do mais, eu mesmo – um nefelibata confesso e um permanente rebelde literário – não sigo a maioria das sugestões que dei ali, já que as considero o caminho certo para uma produção artificialmente asséptica que, em absoluto, não me agrada. Eu escrevo porque gosto, talvez até por uma certa necessidade espiritual, e nunca tive vontade de, seguindo fórmulas pré-programadas, tornar mais palatável para o grande público aquilo que, com o meu sangue, produzo na literatura. Não condeno nem censuro quem o faça, pois sei que isso é inevitável para aqueles que pretendem se consolidar no mercado literário, mas eu simplesmente nunca tive o temperamento necessário para esse tipo de coisa. Desse modo, compartilhar minhas dicas – que, em verdade, nem minhas são – seria algo um tanto desleal, já que existem materiais melhores facilmente disponíveis por aí”.

Registro, aqui, que não menosprezo a técnica – muito pelo contrário, sempre procuro conhecê-la a fundo e dominá-la com precisão –, mas, sendo fiel à minha concepção artística mais profunda, busco sempre subvertê-la e, se possível, inovar.

Já no meu livro de estreia, “A Caixa de Natasha e outras histórias de horror”, mas de modo ainda mais evidente nas publicações posteriores (como é o caso do conto “O Sorvedouro das Almas Perdidas”, lançado na antologia “Não Leia! – Contos de Terror”, da Editora Fonzie), busco, com paciência, esforço e, quando me é concedida, verdadeira inspiração, construir uma literatura eminentemente pessoal, preocupada não só em agradar o leitor, mas, em especial, em proporcionar – para o leitor e para mim – uma experiência diferenciada, singular, que vá além, para o bem ou mesmo para o mal, da monotonia fugazmente brilhosa dos livros tradicionais. Procuro escrever as melhores histórias de que sou capaz: se não forem suficientes para serem consideradas boas, prefiro correr o risco de fazer literatura de má qualidade, mas honesta e original, do que me tornar um rótulo genérico que só faz aumentar o volume de uma literatura-padrão, mediana, insossa, inanimada e indiferente. Embora eu saiba que clichês só são clichês porque funcionam, eu simplesmente não tenho como persegui-los: possuo baixa tolerância ao tédio e sou alérgico a lugares-comuns, a fazer o que os outros fazem – e isso até mesmo quando o que os outros fazem é, comprovadamente, a opção que traz os melhores resultados.

A busca pela originalidade sincera e personalíssima, ainda que esta seja impossível de ser alcançada, é minha meta e minha sina enquanto escritor.

Eis, portanto, a pergunta-chave: se o fundamental a ser dito sobre como escrever não é, na verdade, a técnica, então o que é? A resposta está na reestruturação da própria pergunta: não é como escrever, mas o que escrever, o ponto vital. Trocando em miúdos: por que escrever?

Sabendo-se ou intuindo-se o “o que” e o “por que”, o “como” surgirá naturalmente: o “como” de cada escritor, seu estilo único e pessoal, intransferível – a marca de seu próprio ser.

O importante, então, é ter o que falar. Se você tiver o que falar – se você sentir de verdade que tem uma mensagem relevante a ser transmitida, ainda que não saiba de antemão que mensagem seja essa –, então todos os elementos do texto vão convergir para que você obtenha sucesso. Melhor dizendo: você vai conseguir, de uma forma ou de outra, com maior ou menor esforço, com mais ou menos recursos, depois de um dia leve de trabalho ou de um século de labuta constante, transmitir a sua mensagem. Sorrindo ou chorando, sem uma gota de suor no rosto ou com calos nos dedos, bolsas escuras ao redor dos olhos, cabelos desgrenhados e escoriações nas articulações da mão de tanto dar soco na parede, você vai conseguir reunir, organizar, dominar e harmonizar todas as ferramentas necessárias para expressar o que você deseja. Tendo algo de relevante e sincero a ser dito, você estará 100% ligado ao resultado final (que é o que importa) e, sem perceber ou fazer esforço, você vai ligar as válvulas mais recônditas do seu cérebro para acompanhá-lo nessa longa e dura jornada mágica, amparando-o nos mínimos detalhes que, de outra forma, fatalmente passariam despercebidos. Detalhes esses que, por serem captáveis pela sensibilidade extra-racional e constituírem parte da própria alma da obra, são absolutamente essenciais na criação literária (e aqui está o terreno da intuição, que é a maior aliada do artista).

Agora, se você não tiver nada para dizer, então nada vai salvá-lo da inocuidade. Não importa quantas técnicas você domine ou quantos floreios você insira no seu texto: se um impulso verdadeiro não brotar em seu coração, tudo será em vão.

Não nego que as palavras, por si só, são poderosas e até ardilosas (assim como poderosas e ardilosas podem ser as pessoas), mas algum lugar da alma do leitor – aquela região profunda, quase inacessível, que, misteriosamente, entra em contato com a alma do escritor para, juntos, construírem um livro – vai saber (ou melhor: vai sentir com aquela certeza suprema que está além da compreensão), que, em essência, o texto é vazio. É como manter uma relação com uma pessoa sem amor ou entusiasmo: não dá certo. O princípio é exatamente o mesmo. Ovo oco não dá vida.

Apenas com técnicas e rebuscamento linguístico, sem esse ímpeto inominável que é a centelha a incendiar e iluminar a criação, talvez seja possível produzir entretenimento, mas não literatura; muito menos arte.

Estou ciente de que vão julgar minha opinião, avessa ao que ensina a maioria dos manuais de escrita criativa, como uma opinião exagerada, romântica e exaltada. Por certo ela é, e fico feliz que seja assim. Num mundo em que os livros vão se tornando cada vez mais homogeneizados, cada um igualzinho ao outro, espero que encontrem em meus escritos uma voz pessoal, sincera e humanamente real: bizarra, esquisita, excêntrica e estrambótica, se for preciso, mas real em cada letra, em cada vírgula, em cada elipse, em cada entrelinha! Pois, a não ser por necessidade ou para exercitar o estilo, jamais quero, com palavras vãs, manchar de morte a sagrada alvura-que-tudo-aceita do papel.

É o que atesto: minha intenção, ao escrever, não é entreter. Minha intenção é rasgar sua carótida.

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